Dentro da máquina: tecnologias, erros e algoritmos
A era atual tem nome: NISQ, máquinas ruidosas de escala intermediária, termo de John Preskill (2018); o próximo degrau, na mesma linha de raciocínio, é a "máquina megaquop" (2025), capaz de um milhão de operações lógicas confiáveis. Não existe "o" computador quântico. Existem pelo menos sete formas de construir um qubit, cada uma com um líder, um gargalo e um prazo. O que une todas é o mesmo problema (erros) e a mesma solução (codificar muitos qubits físicos em poucos lógicos). E o que o negócio precisa saber é que a máquina será um acelerador ligado a um supercomputador, programado por uma pilha de software que já existe.
- Quais tecnologias de qubit existem e qual é o gargalo de cada uma?
- O que é o limiar de correção de erros e por que 2024 foi a virada?
- Como uma QPU é usada na prática ao lado de um supercomputador?
As camadas de um computador quântico
De cima para baixo, do que o usuário vê ao que fica a 15 milikelvin.
Os fios descem por seis placas de cobre e ouro, cada uma mais fria que a anterior, até o chip, a 15 milikelvin: duzentas vezes mais frio que o espaço profundo. O frio final vem de uma mistura de hélio-3 e hélio-4. Íons e átomos neutros dispensam isso; trabalham em câmara de vácuo à temperatura ambiente, com lasers.
Qiskit (IBM, usado por cerca de 70% dos desenvolvedores), CUDA-Q (NVIDIA), PennyLane, Guppy (Quantinuum), Bloqade (QuEra). Python por cima; o circuito é descrito como no simulador do capítulo 01.
Transpila o circuito para as portas nativas e a conectividade do chip, e aplica supressão e mitigação de erros. A IBM relata mitigação acelerada por HPC que cortou o custo em mais de 100x (nov/2025).
Mede síndromes de erro e corrige em tempo real. Exige decodificadores rápidos: a IBM demonstrou decodificação qLDPC em menos de 480 nanossegundos; a Quantinuum usa GPUs NVIDIA para corrigir durante a execução.
Eletrônica de micro-ondas, lasers ou campos elétricos que executam as portas e leem os qubits. Lasers e ópticos especializados são o gargalo de cadeia mais citado pela McKinsey.
O chip com os qubits e seu habitat: refrigerador de diluição a 15 mK (supercondutores, spin), câmara de ultra-alto vácuo (íons, átomos), fotônica de silício a temperaturas mais altas (fótons). Potência: 5 a 25 kW, contra 15.000 kW de um supercomputador (McKinsey).
Formas de construir um qubit
Nenhuma venceu. O dinheiro de risco (2023 a 2025) foi para íons aprisionados (US$ 4,6 bi), fotônica (US$ 2,8 bi), supercondutores (US$ 2,4 bi), átomos neutros (US$ 0,7 bi) e spin (US$ 0,4 bi). A DARPA levou ao estágio final de avaliação, em outubro de 2026, seis empresas de quatro tecnologias diferentes.
Supercondutores
Circuitos com junções Josephson resfriados a cerca de 15 mK. Portas em dezenas de nanossegundos. A tecnologia de IBM, Google, Rigetti, AWS, Fujitsu/RIKEN e da chinesa USTC.
- Quem
- IBM, Google, Rigetti, AWS (cat qubits), Alice & Bob, Fujitsu/RIKEN, USTC
- Prós
- Portas rápidas; fabricação em fábricas de semicondutores (IBM em wafers de 300 mm); ecossistema de software maduro
- Contras
- Coerência curta (100 a 350 µs); só conecta vizinhos; criogenia pesada e dependente de hélio-3; fiação por qubit
Íons aprisionados
Átomos ionizados (bário, itérbio) presos por campos elétricos e manipulados por laser ou micro-ondas. As maiores fidelidades da indústria e conectividade total entre qubits.
- Quem
- Quantinuum (Honeywell), IonQ (com Oxford Ionics e SkyWater), AQT
- Prós
- Fidelidade recorde (99,921% em 2 qubits); qubits idênticos por natureza; todos conversam com todos; 2 físicos por lógico em códigos simples
- Contras
- Portas lentas (microssegundos a milissegundos); escalar íons por armadilha é difícil; dependência de lasers
Átomos neutros
Átomos (rubídio, césio, estrôncio, itérbio) presos por "pinças ópticas" e emaranhados via estados de Rydberg. A tecnologia que escala a milhares de qubits num único sistema, sem criogenia.
- Quem
- QuEra, Atom Computing (com Microsoft), Pasqal, Infleqtion, Caltech/Harvard; Google abriu programa em mar/2026
- Prós
- Milhares de qubits (6.100 na Caltech); reconfiguração dinâmica; coerência de segundos; sem refrigerador de diluição
- Contras
- Perda de átomos; portas mais lentas; fidelidade ainda abaixo dos íons
Fotônica
Fótons como qubits, circuitos em fotônica de silício. Opera em temperaturas mais altas e usa fábricas de chips existentes; a dificuldade é que fótons se perdem e as portas são probabilísticas.
- Quem
- PsiQuantum (GlobalFoundries), Xanadu, Quandela, USTC (Jiuzhang)
- Prós
- Fabricação em fundição; conectividade por fibra; menos criogenia (detectores supercondutores ainda precisam de frio)
- Contras
- Perda de fótons; portas probabilísticas; nenhum resultado de propósito geral em escala ainda
Spin em silício
O spin de um elétron preso num transistor. Fabricação CMOS de 300 mm e qubits minúsculos: potencial de milhões por chip. Ainda com poucos qubits demonstrados.
- Quem
- Diraq, Quantum Motion, Silicon Quantum Computing, Intel, HRL (comprada pela IBM em jul/2026)
- Prós
- Processo de semicondutor padrão; densidade altíssima; temperatura um pouco mais alta que supercondutores
- Contras
- Variabilidade entre dispositivos; poucos qubits demonstrados; integração de controle
Topológico
A aposta da Microsoft: qubits protegidos por propriedades topológicas da matéria (modos de Majorana), com erros intrinsecamente raros. A existência desses modos nos dispositivos segue contestada em revisão por pares.
- Quem
- Microsoft (Majorana 1, fev/2025; Majorana 2, jun/2026)
- Prós
- Se funcionar, mais de 1 milhão de qubits num só chip, com pouca correção de erros
- Contras
- Crítica revisada por pares na Nature (Legg, jun/2026) ao protocolo de detecção; nenhum qubit lógico demonstrado publicamente; avaliação independente pela DARPA em curso
Annealing (recozimento)
Não é modelo de portas. A máquina da D-Wave encontra mínimos de energia de um problema de otimização codificado em formato QUBO. Útil para uma classe específica de problemas; não é universal e não roda Shor.
- Quem
- D-Wave (Advantage2: mais de 4.400 qubits, topologia Zephyr)
- Prós
- Disponível comercialmente há mais de uma década; solvers híbridos em produção (Ford Otosan, Pattison)
- Contras
- Nenhuma vantagem demonstrada sobre bons solvers clássicos em otimização; alegação de "supremacia" (Science, mar/2025) foi em simulação de física e foi contestada
O limiar: por que 2024 foi o ano da virada
Um qubit lógico é feito de muitos físicos, dispostos num código (o mais comum é o código de superfície). A regra é contraintuitiva: se a taxa de erro física está acima de um limiar (cerca de 1%), juntar mais qubits piora o resultado. Abaixo do limiar, cada aumento de "distância" do código reduz o erro lógico exponencialmente. O Google demonstrou isso de forma definitiva no Willow (dez/2024): grades 3×3, 5×5 e 7×7, com o erro caindo pela metade a cada degrau.
Os círculos são 25 qubits físicos de dados; os quadrados são verificadores que medem a paridade dos quatro vizinhos sem ler o valor de nenhum deles. Toque num círculo para introduzir um erro. Os verificadores ao redor acendem: isso é a síndrome, a única informação que o decodificador recebe.
Até 2 erros, a síndrome aponta a correção sem ambiguidade. Uma cadeia de 5 erros atravessando a grade deixa todos os verificadores apagados: é um erro lógico, invisível. Por isso a distância do código (aqui 5) decide quantos erros ele tolera, e por isso os roadmaps falam em distância 7, 9 ou mais.
Modelo didático com limiar de 1%, calibrado pela escala dos resultados do Google (Nature, dez/2024). Valores reais dependem do código e do decodificador.
Código de superfície vs. qLDPC
O código de superfície precisa de cerca de 1.000 físicos por lógico em escala útil e só conecta vizinhos. Códigos qLDPC (o "gross code" da IBM, publicado por Bravyi e colegas na Nature em 2024) cortam o overhead em cerca de 90%, mas exigem conexões de longo alcance (os "c-couplers" do chip Loon) e decodificação rápida. É a aposta que sustenta o IBM Starling (200 lógicos em 2029).
Razões físico/lógico hoje
Razões baixas valem para códigos de distância pequena (detecção e correção limitadas); a comparação justa é por erro lógico alcançado.
O que cada algoritmo faz e o que exige
Barras indicam maturidade prática em 2026 (de 1, só teoria, a 5, vantagem demonstrada).
Shor
Fatoração e logaritmo discreto. Quebra RSA, ECC, DH. Exige máquina tolerante a falhas com centenas de milhares a 1 milhão de qubits físicos. Ainda não executado em escala, mas é o algoritmo que define os prazos regulatórios.
ameaça criptográficaSimulação quântica
Química, materiais, magnetismo. Todas as alegações de vantagem de 2025 e 2026 estão aqui: Google OTOC, IBM/RIKEN ferro-enxofre, Qedma Ising, D-Wave vidros de spin. Valor de negócio em farma, químicos e energia.
vantagem alegadaAmostragem
Gerar distribuições que o clássico não consegue (Sycamore 2019, Quantum Echoes 2025). Uso prático: aleatoriedade certificada (JPMorgan + Quantinuum, Nature, mar/2025).
demonstradoQAOA / VQE (híbridos variacionais)
Otimização e química em máquinas ruidosas, com um otimizador clássico no laço. Usáveis hoje em pilotos (Deutsche Bahn + IQM, 2026), sem vantagem comprovada. Para Max-kXOR, heurísticas clássicas igualam ou superam (arXiv 2411.19388).
piloto, sem vantagemGrover
Busca não estruturada com ganho √N. Com o custo da correção de erros, ganhos quadráticos raramente compensam (Hoefler, Häner, Troyer, CACM 2023). Contra AES só obriga chaves maiores.
teoriaHHL e álgebra linear / QML
Sistemas lineares e aprendizado de máquina. Exigem carregar e ler dados de forma eficiente, o que raramente é possível; vários candidatos foram "desquantizados" por algoritmos clássicos (Ewin Tang, 2018).
teoria, contestadoAnnealing vs. modelo de portas
Annealing (D-Wave)
- Resolve só otimização em formato QUBO/Ising.
- Não é universal: não roda Shor, não simula química geral.
- Comercial há mais de dez anos; milhares de qubits de baixa qualidade.
- Em produção via solvers híbridos (o ganho vem da parte clássica e da modelagem).
- Comparação direta com solvers em GPU: o clássico segue mais rápido (arXiv 2509.03952).
Modelo de portas (todos os demais)
- Universal: qualquer algoritmo quântico, inclusive Shor.
- Programado por circuitos (capítulo 01).
- Frágil: exige correção de erros para programas longos.
- Onde estão todos os roadmaps de tolerância a falhas (2028 a 2033).
- Onde estão as alegações de vantagem de 2025 e 2026.
Híbrido: a QPU como acelerador do supercomputador
O padrão de uso que já existe: o computador clássico faz a maior parte do trabalho e chama a QPU para a sub-rotina em que ela ajuda. Exemplos de 2026: IBM Heron de 77 qubits acoplado aos 152.064 nós do Fugaku (RIKEN); Quantinuum Helios na Oracle Cloud ao lado de GPUs GB200; QuEra no ABCI-Q; Pasqal no Jülich. A McKinsey resume: "a maior parte das cargas seguirá híbrida".
Identificar subproblemas quânticos
Dentro de um fluxo de HPC ou de otimização, qual etapa tem estrutura explorável (simulação, amostragem)? O resto fica clássico.
Planejar fluxos híbridos
Middleware (Qiskit, CUDA-Q, NVQLink) para orquestrar CPU, GPU e QPU. É engenharia de software convencional, aprendível por equipes de dados.
Treinar quem já faz HPC e otimização
As pessoas que modelam problemas de otimização hoje são as mesmas que vão usar QPUs. Formar 2 a 5 delas custa pouco e cria a capacidade de julgar fornecedores.
O que o computador quântico não faz
- Não acelera tudo. A maioria das tarefas de TI (bancos de dados, ERP, web, vídeo) não tem estrutura quântica explorável.
- Não substitui CPU e GPU. É acelerador para sub-rotinas específicas.
- Não resolve problemas NP-completos em tempo polinomial. Otimização difícil continua difícil; o ganho, quando existe, é parcial.
- Não dá resposta determinística. O resultado é uma distribuição; precisa de repetição e verificação.
- Não copia estados (teorema da não clonagem), o que limita backup, depuração e algumas arquiteturas.
- Não armazena big data. Carregar dados clássicos num estado quântico é lento; algoritmos que dependem disso raramente compensam.
- Não é "IA quântica" ainda. Krista Svore (NVIDIA): a computação quântica é "uma extensão da IA" no sentido de alimentar modelos, mas QAOA/QSVM seguem "sem vantagem prática comprovada" (MIT Tech Review Brasil, dez/2025).
- Não é rápido em tudo que tem "quantum" no nome. "Quantum-inspired" é software clássico; QRNG é gerador de números aleatórios, não criptografia.
O que levar deste capítulo
- Nenhuma tecnologia venceu: íons lideram em fidelidade, átomos em escala, supercondutores em velocidade e ecossistema.
- Abaixo de ~1% de erro físico, mais qubits reduzem o erro lógico; o Google demonstrou isso em dez/2024 e os códigos qLDPC cortam o custo.
- A QPU é um acelerador chamado por sub-rotinas dentro de um fluxo clássico; a maior parte das cargas seguirá híbrida.